«preciso de centrar o meu EU»
Quando pensei na reserva, pensei em seis pessoas! Deixei um lugar vazio.
Desde o início me questionei para quem seria aquele lugar privilegiado. Pois serão dias novamente importantes para mim.
Vou estar com as minhas filhas, com as minhas netas, com os meus genros, com o Diogo e com o Edson. E, apesar de o Edson ter de trabalhar, haverá da parte dele o esforço de fazer algumas vezes a viagem entre Matosinhos e Amarante para poder estar conosco.
E isso deixa-me feliz.
Feliz por ter estes dois homens na minha vida, porque fazem parte da vida das minhas filhas e, por isso, também da minha. E, claro, desejo que sejam merecedores desse lugar, mas também que estas meninas façam por os merecer. O carinho, a presença e a companhia. Pois a vida pode ser longa... e certamente, ficará melhor. Não precisamos de caminhar sozinhos!
A Molly, essa, foi logo uma constatação. Quando pensámos em reservar, já sabíamos que ela iria. Não seria uma viagem sem ela.
Pensei na Jorgina, uma mãe e avó muito atenta, sempre a cuidar dos outros. Sabendo bem o significado desse papel, achei que merecia uns dias de descanso, numa casa de pedra, num ambiente de campo, com pequeno almoço incluído e, acima de tudo, a usufruir das suas netas — uma de coração e outra de sangue, e ambas também minhas netas.
Jorgina, porém, está numa fase em que não consegue tirar tantos dias. O quanto teria gostado de estar com ela, preparar refeições. Aprender talvez a fazer cuscuz! Sempre algo novo, algo digno de reter nesta passagem pela vida.
Pensei então na Paula, também ela uma mulher cuidadora, minha companheira de percurso profissional, que este ano passou por uma mudança de casa, de vida e de tantas outras coisas. Um divórcio que, mais do que uma separação, lhe trouxe a oportunidade de se conhecer e valorizar.
Por vezes somos fortes mesmo sozinhos. Sozinhos somos tudo o que precisamos. Os outros ajudam-nos a viver esta vida, mas não podem ser a base fundamental dela.
Mas também a Paula não podia. O filho, de quem tanto gosto, está num emprego novo e precisa ainda daquele apoio de mãe na gestão da casa. Tudo é novo, ainda há coisas para organizar. Coisas de mãe. Certamente teríamos momentos incríveis de paz e silencio entre um brinde de cálices de vinho do porto! Celebrar a vida.
Sorri e entendi.
Depois veio-me o pensamento de Ibiza. A experiência tinha sido tão boa que achei que valia a pena repetir o convite. Desta vez apenas ao Zé, porque a Joca está em Espanha com a família, a usufruir do merecido descanso depois de conduzir mil quilómetros até lá.
Liguei-lhe de forma quase inesperada e fiz o convite. A Xana estava comigo no momento e reforçou logo: Tio é para estares com elas: Alana e Maria Lis e claro com Molly também. (Zé em conversa posterior comentou que vai ter oportunidade de estar com Edson e Diogo, de os conhecer um pouco mais!)
Eu sorri, porque sabia que nem precisava de insistir muito. O Zé aceitaria.
E é aqui que começa a minha questão. O que será?
Será a idade? Será uma fase? Será simplesmente a vontade de viver de outra maneira? Zé está quase nas seis décadas de vida. Tem muita história, muita aventura, coisas que nem imagino. E sempre foi livre. Sempre livre. Mas há uma coisa que também sei: o Zé sempre esteve sozinho. Sempre teve a sua vida, o seu espaço. E, durante tantos anos, fomos nós que fomos ter com ele. Eu e, durante muito tempo, também a minha mãe.
Talvez por isso esta viagem me desperte tanta curiosidade. Desta vez não sou eu que vou ao encontro dele. É ele que vem ter connosco. E talvez seja isso que quero perceber. Não quem é o Zé que conheço nas visitas. Sabemos que há um encontro, sabemos que haverá conversa, risos e, no fim, aquele momento em que alguém se vira e vai embora.
É diferente quando se fica.
São as pequenas coisas do dia a dia que nos mostram verdadeiramente as pessoas. Os silêncios, as rotinas, o cansaço, a forma como se partilha o espaço, como se ajuda, como se recebe, como se lida com aquilo que não estava previsto.
Por isso, vamos conhecer o nosso Zé. Sem expectativas. Apenas vivendo estes dias.
E só hoje, a olhar para os nomes, percebi a ironia:
Santinho e Zé. 😂
Talvez o nome já dissesse qualquer coisa e eu é que só agora reparei.
E talvez seja também por isso que Amarante e a Quinta do Santinho tornam estes dias ainda mais especiais. Um lugar com alma, com história, com granito, natureza, silêncio e aquele tempo que parece correr de outra forma. Um lugar onde é fácil parar, olhar à volta e perceber que, afinal, são estes momentos simples — estarmos juntos, vermos crescer os nossos, partilharmos uma refeição, uma conversa, uma gargalhada — que ficam.


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